sábado, 28 de novembro de 2009

Ámen II

Este artigo é a minha resposta a um artigo – Ámen – publicado no Senado.

“A incompreensão que se possa sentir (penso que qualquer homem digno desse nome a sente) ao ouvir falar de abusos sexuais a crianças não legitima, automaticamente, que se digam inverdades.

Para se dizer o que quer que seja em relação à Igreja, em conformidade com a verdade, é preciso saber-se o que é, de facto, a Igreja, o que ela diz de si e do mundo e o que está por trás daquilo que diz. O texto é longo mas tem todo o direito a ser lido, com atenção redobrada por quem faz suas as palavras do artigo do nosso prezado e caro senador Rafael, em nome da liberdade de expressão de contradizer.

I

Igreja (do grego ekklesia) significa, etimologicamente, assembleia e é o que ela é na realidade. Uma assembleia da qual fazem parte os baptizados mas na qual só participam alguns. Portanto, a ideia de que a Igreja é uma instituição religiosa de papas, bispos, padres, freiras e monges, que (hoje em dia) vive pacificamente fora do estado mas que gostava de ter algum poderzinho temporal é um engano. A Igreja é uma assembleia onde o Espírito de Cristo se faz presente, onde os que nela participam O podem testemunhar e cuja missão é levar aos homens por todo o mundo a notícia do seu encontro pessoal com esse mesmo Cristo. Encontro pessoal: encontro de uma pessoa com outra pessoa e do qual resulta a felicidade extrema para a qual o homem foi criado. Daqui é claro perceber que a Igreja não pode ser uma instituição religiosa: é que o Cristianismo não é uma religião; uma religião é a procura de Deus/deuses/transcendências por parte do homem; diferentemente, o Cristianismo é o encontro pessoal do homem com Deus, em que Deus se encontra com o homem.

A partir daqui, podemos também concluir que a Igreja nunca poderia ser “Um grupo de indivíduos, que habitam num mundo distante, diferente dos restantes indivíduos a quem os primeiros chamam rebanho”. Como tal, Igreja e clero (papa, bispos e padres) não se confundem. O clero é um conjunto de homens que serve a assembleia, a Igreja. Os que servem são chamados ministros – ministério quer dizer serviço, na sua etimologia. Logo, o clero não é a Igreja; o papa, os bispos e padres fazem parte, como qualquer baptizado, da assembleia dos que se querem encontrar com Cristo e dos que se encontraram com Cristo mas não são ela nem seus donos.

II

Do acima exposto, podemos retirar que o que faz cada um dos membros da Igreja não influi, nem para bem nem para mal, na natureza da Igreja-Assembleia  ainda que prejudique – e pode prejudicar e de que maneira, como podemos ver pelo escândalo noticiado – a sua missão.

Agora podemos discutir com outra perspectiva as considerações feitas pelo nosso caríssimo senador Rafael.

 

1. O IRA não tem nada que ver com a Igreja Católica, ainda que muitos dos seus membros se dissessem, ou fossem mesmo, católicos. Aliás, basta dizer que muitos dos soldados do IRA tiveram problemas com padres por causa da sua luta (fica para outras núpcias a discussão sobre a legitimidade desta última);

2. Não será esta a melhor imagem daquilo que representa a igreja católica em pleno sec XXI? Um grupo de indivíduos, que habitam num mundo distante, diferente dos restantes indivíduos a quem os primeiros chamam rebanho, e que de vez em quando surgem em público ora para criticar a aprovação de uma lei, ora para incentivar a disseminação de uma doença, ora para molestar criancinhas?

Uma imagem é uma projecção da realidade. A imagem de que se fala será a projecção da realidade que é a Igreja. Já vimos o que é a realidade da Igreja (embora que sucintamente e em linhas pouco sábias). Logo, essa imagem só pode derivar de um erro (desconformidade entre a verdade e o conceito subjectivo da realidade).

2.1. Porque não há indivíduos que vivam em mundos distantes: é uma una assembleia, como já vimos;

2.2. Se o conceito de aparecer de vez em quando corresponder a aparecer todos os dias está muito bem essa imagem, pois que todos os dias os ministros da Igreja se pronunciam em público sobre todos os assuntos que interessa à vida do homem de hoje, seja através de documentos oficiais, seja através de meios de comunicação próprios, seja presencialmente. Mas é preciso que a impressão que se tenha de público seja uma que corresponda a um conceito largo de público e não se restrinja meramente a uma comunicação social de carácter telegráfico e efémero que aborda os temas, problemas e acontecimentos de forma breve, pouco funda e até leviana. Nesse público restrito, de facto, os ministros da Igreja só aparecem de vez em quando (não todos os dias)– ainda bem. Por outro lado, confesso nunca ter ouvido ninguém da Igreja a incentivar a disseminação de uma doença (também pode ficar para outras núpcias) nem tampouco fazer apologia do molestamento de crianças. Essa é uma leitura inadmissivelmente tendenciosa de alguém que comenta uma notícia e recorta a parte que lhe desfaz o comentário, salvo o devido respeito a quem o faz.  Vale a pena recordar o que disse o actual arcebispo de Dublin (que nada tem que ver com o escândalo) na mesma notícia: current Archbishop of Dublin, Diarmuid Martin, apologised to the victims, describing their abuse as an "offence to God". He said: "I offer to each and every survivor my apology, my sorrow and my shame for what happened."

3. Há ainda outra inverdade clamorosa quando se diz que os arcebispos não contaram nada à polícia: For their part, Gardai frequently ignored complaints from victims, effectively granting priests immunity from prosecution. The inquiry found that church authorities nurtured inappropriately close relations with senior police officers. (Gardai é a força policial irlandesa) Não há nada a acrescentar: pior foi a emenda que o soneto, maior o escândalo pela cobertura que o escândalo provocado pelos crimes, ou quase.

 

Assim, e em resumo, se um membro de uma instituição pratica um crime, todos devem com ele praticá-lo, com vista a deixar intacta a dignidade da santa sé (soa a mandamento?).

Este parágrafo é incompreensível face a tudo o que foi dito acima.

-Se o papa for nazi, todos o devem ser...

Este também o é mas em maior amplitude.

Deus nos salve! – Agora sem ironia.”

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Novo Blog

Diz que a união faz a força... Pois que este blog tem andado muito fraquinho resolvi juntar-me com outros bloggers noutro lugar, a saber senatuslusitanum.blogspot.com . No entanto, os textos que por lá publicar continuarão a aparecer por aqui.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ter filhos ou não ter

A reportagem que passou na RTP no programa Linha da frente ontem, 18 de Novembro, obrigou-me a tratar um tema que é urgente hoje e precisa de debate preocupado, soluções sérias e capacidade de abertura mental. Vale a pena ver a reportagem aqui.

Ela retrata quatro famílias: uma sem filhos, uma com uma filha, uma com um filho e uma filha e, finalmente, uma de seis filhas e quatro filhos. Mais profundamente, põe a nu e procura descortinar as razões para termos, em Portugal, um índice de natalidade tão dramático (drama que se estende por toda a Europa mas que, pelos vistos não preocupa toda a gente). O índice de fertilidade mínimo para a substituição das gerações (substituição, nem sequer é crescimento demográfico) é de 2,11 filhos por mulher. Actualmente vamos nos 1,36…

O modelo de família que o nosso século vê mais frequente corresponde ao das 3 primeiras famílias (a par das famílias monoparentais). Famílias com poucos filhos ou mesmo nenhuns (é isso uma família?) onde as razões para essa falta de filhos são:

- o dinheiro não chega para tudo;

- cada criança exige o seu tempo, tempo esse que, multiplicado por mais de duas crianças, não existe, numa sociedade em que homem e mulher trabalham a tempo inteiro;

- ter filhos implica abdicar da própria vida (projectos pessoais);

- os filhos tiram a “paz”.

Vejamos. O argumento de “o dinheiro não chega para tudo” é dado pelo pai de uma filha única que gasta cerca de 900 euros por mês na educação da menina (colégio, actividades extra curriculares), conduz um Audi A4 de 2007 (?) e trabalha num  escritório amplo e bem mobilidado (que parece ser uma divisão da casa). Quando a filha lhe pediu um irmão respondeu-lhe peremptoriamente que não podia ser… Quando lhe pediu um cão, ofereceu-lhe um porquinho da índia, com trela, para lhe fazer companhia. (as imagens da menina solitária a brincar com um roedor seriam deprimentes, não fosse mágica a imaginação infantil que em tudo vê alegrias). É claro que o dinheiro não chega para tudo! Nem o homem mais rico do mundo tem dinheiro para tudo! Não parece que esta família não tenha dinheiro para acudir a custos necessários com o cuidado de mais que um filho. Portanto, é inegável que esta família, não tendo falta de dinheiro, prefere ter mais dinheiro a ter mais filhos. Prefere o conforto material que o dinheiro proporciona à geração de vida humana. Será falacioso afirmar que ele é o verdadeiro materialista, vive para o dinheiro mas não suporta viver para mais que duas pessoas (a mulher e a filha, se não se divorciar entretanto)? Quando digo “esta família” estou a falar de milhares de famílias em situação idêntica.

O problema de não haver tempo para dedicar aos filhos é geral, numa sociedade em que homens e mulheres trabalham no mínimo 8 horas por dia. Na luta do feminismo, que é legítima quando se debate a dignidade da mulher, perdeu-se de vista a maternidade como vocação da mulher. Ela, ao tornar-se igual ao homem no mundo do trabalho (e tantas vezes com mais qualidade), não subiu ao nível do homem mas rebaixou-se naquilo que tinha de superior. Aquilo que tinha de sublime na sua natureza feminina, o ser mãe, abdicou em nome de uma igualdade que a prejudica e nem é assim tão verdadeira! De outra maneira: contra o desequilíbrio provocado pelo quase monopólio dos direitos civis detido pelos homens e pela mitigada protecção civil das mulheres, a que acrescia o direito natural a serem mães, a luta feminista pelos direitos civis das mulheres esqueceu a defesa do direito a ser mãe.

Essa luta tinha, necessariamente, que ser feita mas era uma luta de todos, homens e mulheres, em nome da dignidade da pessoa humana.

Por outro lado, não se nega que não se gostasse de ter mais filhos. Mais! Num estudo da Associação de Famílias Numerosas, é demonstrado que a maioria das mulheres que têm filhos gostaria de ter mais. Donde, se não têm é porque não conseguem ou não podem. E se não podem há de ser por razões económicas ou sociais. Repare-se que os exemplos da reportagem não são de pessoas que vivem na miséria e não têm condições objectivas para ajudarem filhos a crescer (e quantos não há assim?); são de pessoas que exigem um nível de vida superior ao aceitável. Repare-se também que disse nível de vida, não disse qualidade! Comparem a criança que fala do seu porquinho da índia e do irmão que não tem com a que fala dos seus nove irmãos…

Temos em mãos um problema que é grave. E ao qual se referiu o nosso Presidente da República na questão “O que é preciso fazer para termos mais filhos?”. Obviamente a pergunta não se referia a actos práticos mas à criação de condições para que esses actos práticos (cópula) possam gerar prole. O país precisa muito de filhos, sem eles seremos em poucas décadas um país de velhos, sem segurança social, sem força de trabalho produtiva e sem todo o leque de direitos e apoios do estado a que tanto nos habituou o estado social. Sem filhos nada disto é possível e teremos cada vez mais uma sociedade onde cada um se fecha em si mesmo, sem réstias de fraternidade (de frater = irmão). É claro que cada um é livre de contribuir, ou não, para a construção substancial da sociedade mas ao lado de todas as liberdades existe uma coisa muito incómoda que é a responsabilidade (susceptibilidade de dar resposta, responsa) e a responsabilidade de um colapso demográfico do nosso país é de todos aqueles que, ostensivamente, não querem e se recusam a ter filhos. Incluindo, de forma especial, aqueles que não querem ter filhos em nome dos seus projectos pessoais. E esses têm que assumir essa responsabilidade, muito mais porque é um preço que todos, mal ou bem, vamos pagar. Em que se concretiza essa responsabilidade? Não sei mas talvez comece por reconhecê-la.