Este artigo é a minha resposta a um artigo – Ámen – publicado no Senado.
“A incompreensão que se possa sentir (penso que qualquer homem digno desse nome a sente) ao ouvir falar de abusos sexuais a crianças não legitima, automaticamente, que se digam inverdades.
Para se dizer o que quer que seja em relação à Igreja, em conformidade com a verdade, é preciso saber-se o que é, de facto, a Igreja, o que ela diz de si e do mundo e o que está por trás daquilo que diz. O texto é longo mas tem todo o direito a ser lido, com atenção redobrada por quem faz suas as palavras do artigo do nosso prezado e caro senador Rafael, em nome da liberdade de expressão de contradizer.
I
Igreja (do grego ekklesia) significa, etimologicamente, assembleia e é o que ela é na realidade. Uma assembleia da qual fazem parte os baptizados mas na qual só participam alguns. Portanto, a ideia de que a Igreja é uma instituição religiosa de papas, bispos, padres, freiras e monges, que (hoje em dia) vive pacificamente fora do estado mas que gostava de ter algum poderzinho temporal é um engano. A Igreja é uma assembleia onde o Espírito de Cristo se faz presente, onde os que nela participam O podem testemunhar e cuja missão é levar aos homens por todo o mundo a notícia do seu encontro pessoal com esse mesmo Cristo. Encontro pessoal: encontro de uma pessoa com outra pessoa e do qual resulta a felicidade extrema para a qual o homem foi criado. Daqui é claro perceber que a Igreja não pode ser uma instituição religiosa: é que o Cristianismo não é uma religião; uma religião é a procura de Deus/deuses/transcendências por parte do homem; diferentemente, o Cristianismo é o encontro pessoal do homem com Deus, em que Deus se encontra com o homem.
A partir daqui, podemos também concluir que a Igreja nunca poderia ser “Um grupo de indivíduos, que habitam num mundo distante, diferente dos restantes indivíduos a quem os primeiros chamam rebanho”. Como tal, Igreja e clero (papa, bispos e padres) não se confundem. O clero é um conjunto de homens que serve a assembleia, a Igreja. Os que servem são chamados ministros – ministério quer dizer serviço, na sua etimologia. Logo, o clero não é a Igreja; o papa, os bispos e padres fazem parte, como qualquer baptizado, da assembleia dos que se querem encontrar com Cristo e dos que se encontraram com Cristo mas não são ela nem seus donos.
II
Do acima exposto, podemos retirar que o que faz cada um dos membros da Igreja não influi, nem para bem nem para mal, na natureza da Igreja-Assembleia ainda que prejudique – e pode prejudicar e de que maneira, como podemos ver pelo escândalo noticiado – a sua missão.
Agora podemos discutir com outra perspectiva as considerações feitas pelo nosso caríssimo senador Rafael.
1. O IRA não tem nada que ver com a Igreja Católica, ainda que muitos dos seus membros se dissessem, ou fossem mesmo, católicos. Aliás, basta dizer que muitos dos soldados do IRA tiveram problemas com padres por causa da sua luta (fica para outras núpcias a discussão sobre a legitimidade desta última);
2. Não será esta a melhor imagem daquilo que representa a igreja católica em pleno sec XXI? Um grupo de indivíduos, que habitam num mundo distante, diferente dos restantes indivíduos a quem os primeiros chamam rebanho, e que de vez em quando surgem em público ora para criticar a aprovação de uma lei, ora para incentivar a disseminação de uma doença, ora para molestar criancinhas?
Uma imagem é uma projecção da realidade. A imagem de que se fala será a projecção da realidade que é a Igreja. Já vimos o que é a realidade da Igreja (embora que sucintamente e em linhas pouco sábias). Logo, essa imagem só pode derivar de um erro (desconformidade entre a verdade e o conceito subjectivo da realidade).
2.1. Porque não há indivíduos que vivam em mundos distantes: é uma una assembleia, como já vimos;
2.2. Se o conceito de aparecer de vez em quando corresponder a aparecer todos os dias está muito bem essa imagem, pois que todos os dias os ministros da Igreja se pronunciam em público sobre todos os assuntos que interessa à vida do homem de hoje, seja através de documentos oficiais, seja através de meios de comunicação próprios, seja presencialmente. Mas é preciso que a impressão que se tenha de público seja uma que corresponda a um conceito largo de público e não se restrinja meramente a uma comunicação social de carácter telegráfico e efémero que aborda os temas, problemas e acontecimentos de forma breve, pouco funda e até leviana. Nesse público restrito, de facto, os ministros da Igreja só aparecem de vez em quando (não todos os dias)– ainda bem. Por outro lado, confesso nunca ter ouvido ninguém da Igreja a incentivar a disseminação de uma doença (também pode ficar para outras núpcias) nem tampouco fazer apologia do molestamento de crianças. Essa é uma leitura inadmissivelmente tendenciosa de alguém que comenta uma notícia e recorta a parte que lhe desfaz o comentário, salvo o devido respeito a quem o faz. Vale a pena recordar o que disse o actual arcebispo de Dublin (que nada tem que ver com o escândalo) na mesma notícia: current Archbishop of Dublin, Diarmuid Martin, apologised to the victims, describing their abuse as an "offence to God". He said: "I offer to each and every survivor my apology, my sorrow and my shame for what happened."
3. Há ainda outra inverdade clamorosa quando se diz que os arcebispos não contaram nada à polícia: For their part, Gardai frequently ignored complaints from victims, effectively granting priests immunity from prosecution. The inquiry found that church authorities nurtured inappropriately close relations with senior police officers. (Gardai é a força policial irlandesa) Não há nada a acrescentar: pior foi a emenda que o soneto, maior o escândalo pela cobertura que o escândalo provocado pelos crimes, ou quase.
Assim, e em resumo, se um membro de uma instituição pratica um crime, todos devem com ele praticá-lo, com vista a deixar intacta a dignidade da santa sé (soa a mandamento?).
Este parágrafo é incompreensível face a tudo o que foi dito acima.
-Se o papa for nazi, todos o devem ser...
Este também o é mas em maior amplitude.
Deus nos salve! – Agora sem ironia.”