“Os portugueses estão mais individualistas, não morreriam por nada, nem por ninguém, senão pela sua própria família. No entanto, quase 80 por cento constatam que "a sociedade está a perder valores importantes", revela o inquérito Dez anos de Valores em Portugal, apresentado no seminário A urgência de educar para os valores, na Universidade Católica, em Lisboa.
Se fosse há dez anos, para oito em cada dez pessoas fazia sentido morrer para salvar a vida de alguém. Hoje, apenas 46 por cento respondem que morreriam nessas circunstâncias.
Se, por um lado, estão mais individualistas, por outro mostram ter menos preconceitos e ser mais tolerantes.
Apesar de a maioria dos inquiridos ser casada pela Igreja - 56,2 por cento (mais sete do que em 1999), 2,2 por cento vivem em união de facto e 6,5 por cento são divorciados -, o número dos que concordam totalmente que "o casamento está ultrapassado" sobe de 15 para 36 por cento. Para os portugueses, o casal prevalece ao casamento, já que 80 por cento respondem que "uma criança precisa de um pai e de uma mãe para crescer feliz".
"Cada qual cuide de si"
A expressão "olho por olho, dente por dente" mobiliza mais de metade - eram 36 por cento em 1999.
Ter uma família sólida, amar e ser amado, ser um profissional competente, ser honrado e ter amigos leais são os principais objectivos. Nas tomadas de decisões, o que mais os influencia é a consciência e a família. A Bíblia e os líderes religiosos pesam mais do que a ciência ou a comunicação social. O inquérito tem um grau de confiança de 95 por cento e 2,75 de margem de erro.
Bárbara Wong
Excerto retirado de edição de 30.06.2009 do jornal O Público
A real representatividade dos inquiridos é um tanto ou quanto duvidosa… Apenas 937 inquiridos. Por exemplo, nitidamente nos dias de hoje a ciência e comunicação social têm uma efectiva influência mais forte que as razões religiosas e familiares. A própria ciência e comunicação têm moldado a consciência, de modo que esta acaba por ser, indirectamente, manifestação de ciência e comunicação social.
As consequências, no fundo, são as conclusões a que se chegam: uma sociedade paradoxalmente mais tolerante e mais egoísta. Há uma maior abertura mas ao mesmo tempo os indivíduos fecham-se mais sobre si, incapazes de suportar a ideia de dar a vida por quem quer que seja, gratuitamente. Paradoxalmente, é uma sociedade que se quer nortear pelos valores de uma família sólida mas que vai desprezando o casamento (está ultrapassado) e que, paulatinamente, vai admitindo as relações homossexuais como sucedâneas do casamento.
Estes paradoxos conciliam-se pelo milagre que providencia o desnorte, a desorientação. Cada um para seu lado, sem pontos de referência fixos, cada um mareando sem estrelas que guiem, porque o guia é a razão em abstracto e não a prudentia e sapientia em concreto, inspiradas pela fé e que têm sido dadas pelos saberes da tradição ao longo dos séculos.



