Continuando a análise da situação de facto….
3. Não é questionável que o inglês e a música sejam importantes na formação intelectual das crianças. É questionável a quantidade de horas que as crianças passam na escola. É questionável qualquer medida que restrinja o direito natural, supra e praeter legem, que as crianças têm a brincar: obrigar os garotos a passar mais horas dentro de uma sala de aula viola esse direito, bem como obrigar as crianças (já mais crescidas) a terem aulas de substituição. O direito natural ao intervalo e ao recreio está ameaçado com medidas pedagogicamente erradas e que só servem para satisfazer o eleitorado ignorante em matéria de pedagogia e os progenitores que preferem ser trabalhadores a tempo inteiro e pais a part-time. Por vezes parece que estamos a regressar à concepção medieval que coloca a criança a par de um adulto miniatura.
“À escola vai-se para ter aulas, quer se tenham quer não” – diz o estudante de direito, sorvendo um largo trago de cerveja na esplanada, enquanto decorre interessante lição ali perto.
Esta obsessão pela estatística, pelos quocientes produtivos há de nos matar um dia.
4. Quanto ao tema fracturante que assola o Portugal de hoje: a avaliação dos professores. Dizia numa aula eminente professor catedrático, a este respeito: “Toda a gente tem que ser avaliada no seu trabalho. Eu para dar aulas neste anfiteatro tive que ser avaliado na minha licenciatura, no meu mestrado, no meu doutoramento, na minha prova de agregação (etc., etc.). E, naturalmente, hoje avalio os que me sucedem” [nesta sucessão quase apostólica] (acrescento eu)”
Pois sr. professor! Disse bem! pois naturalmente que avalia os que o sucedem, da mesma forma que foi avaliado pelos que o precediam… Cabe no entendimento de alguém ser avaliado por um colega com menos experiência? – Cabe.. No entendimento da sra. ministra da educação…. Cabe isto e cabe muita barbaridade deste estilo naquela cabeçorra e no regulamento de avaliação dos professores. (não cabe é neste textinho longa dissertação sobre o tema nem tão pouco a longa lista de parvoíces de que padece a ideia da sra. ministra)
Agora pergunto: algum ente que reúna cumulativamente em si as condições de: ser um humano, ser professor, ser cidadão de uma nação que diz ser um estado de direito que admita tranquilamente perniciosos desígnios do poder público?
Nunca se ouviu dizer da boca de um professor que não devia haver avaliação. Ao que eles veemente se opõem é a este modelo que é ridículo e foi apresentado pela comunicação social e governo de modo a satisfazer os anseios de uma classe média pequeno-burguesa letrada mas pouco culta.
Hoje em dia, até os muito letrados burgueses a sério (e até aristocratas) não são cultos. Quase ninguém é culto – eu incluído, confesso.
Se os professores, a classe privilegiada que não recebe horas extraordinárias (excepto no serviço de exames) - e não se queixa por isso –, que se vê a braços com delicados problemas sociais, gerados por famílias destruídas/desestruturadas que não sabem que fazer aos filhos – e não se queixam por isso –, que vêem o seu prestígio social, de que tanto precisam - eles e a sociedade -para bem desempenharem as suas funções, destruído paulatinamente por uma sociedade que opina sobre tudo sem saber de nada e que não é capaz de ser minimamente humilde – e não se queixam por isso –, dizia, se os professores se mexem como o têm feito (alguém se lembra de ver alguma classe profissional ou movimentos de apoio a qualquer coisa organizar 5 manifestações no espaço de ano e meio com a adesão que os professores conseguiram?) se escrevem em todo o lado (há centenas de blogues de professores que se indignam e se explicam mas ninguém lê, porque não estão no Público on-line), se os cartazes que empunham o que exigem é justiça e uma melhor escola, como não abrir os olhos?
Como continuar cego ao sabor da conversa deste governo que se tem mostrado tão totalitário?
Como continuar cego e surdo aos anseios do povo e dar ouvidos a vozes mentirosas, corruptas, tendenciosas, perversas (comunicação social e os preconceitos que se vão aglutinando)
Sim do povo, essa massa de que todos fazemos parte, mas com que, burguesmente, nos recusamos a identificar?
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